Um dia um amigo (isso faz muito tempo) me chamou de melancólica, e falou que em momentos de extrema melancolia, eu deveria ler poemas.. Nunca gostei de poemas.
Ouvi dizer que Bolinhos de Legumes com ovo frito e molho de cebola também cura melancolia...
De tempos em tempos surge vontade, sei lá de onde, de sair. Sem rumo. Sem carga. Com uma roupa não comum, uma bolsa a tiracolo e cachecol. Sair comigo. Sozinha. Mas, quando saiu assim, com meus pensamentos me acompanhando, sempre penso e voltar... E, de fato, sempre volto. Das última vez, voltei com Camus. E foi tão real, tão coincidente e aleatório ao mesmo tempo. Tão meu.
Melancolia para mim é doce, eu gosto...
“Acordou um pouco mais tarde. O silêncio à sua volta era total. Mas, nos limites da cidade, cães enlouquecidos uivavam na noite muda. Janine teve um arrepio. Virou-se novamente sobre si mesma, sentiu o ombro duro do marido de encontro ao seu e, de repente, semi-adormecida, aconchegou-se contra ele. Ficava à deriva no sono sem nele penetrar, agarrava-se a esse ombro com uma avidez inconsciente como o mais seguro dos portos. Falava, mas sua boca não emitia nenhum som. Falava, mas mal ouvia a si própria. Só sentia o calor de Marcel. Havia mais de 20 anos, todas as noites, assim, no seu calor, sempre os dois, mesmo doentes, mesmo em viagens, como agora... Aliás, o que teria ela feito sozinha em casa? Nenhum filho! Não era isso que lhe faltava? Ela não sabia. Acompanhava Marcel, eis tudo, contente em sentir que alguém precisava dela. Ele não lhe dava outra alegria a não ser a de saber necessária. Certamente não a amava. O amor, mesmo cheio de ódio, não tem esse rosto descontente. Mas qual é o rosto do amor? Amavam-se no meio da noite, sem se verem, tateando. Existiria outro amor que não o das trevas, um amor que gritasse em plena luz do dia? Não sabia, mas sabia que Marcel precisava dela, e que ela precisava desse precisar, que vivia disso noite e dia, sobretudo à noite, quando ele não queria ficar só, nem envelhecer, nem morrer, com o ar teimoso que assumia e que ela às vezes reconhecia no rosto dos outros homens, a única semelhança entre esses loucos que se escondem sob os disfarces da razão, até que o delírio se apodere deles atirando-os desesperadamente na direção de um corpo de mulher onde enterram, sem desejo, o que a solidão e a noite lhes mostram de terrível.
Marcel mexeu-se um pouco como para se afastar dela. Não, ele não a amava, simplesmente tinha medo do que não era ela, e deveriam ter se separado há muito tempo para dormirem sós até o fim. Mas quem consegue dormir sempre sozinho? Alguns homens, que a vocação ou a infelicidade afastaram dos outros, o fazem, e dormem então todas as noites no mesmo leito até a morte. Marcel, por sua vez não poderia fazê-lo nunca, sobretudo ele, criança fraca e desarmada, que o sofrimento sempre desorientava, seu filho, justamente, que precisava dela (...)”
Camus, A Mulher Adúltera.Seguirei sempre pensando em Albert...




